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domingo, 18 de outubro de 2009

Fluxos entre a antropologia e a arte

A oficina de performance, ministrada pelo João de Ricardo, da que participei na pré-bienal, além de ter despertado em mim um novo olhar sobre o mundo e sobre arte, me fez refletir sobre uma série de questões que aproximam a arte da antropologia.
A experiência de realizar, em grupo, ações individuais aleatórias dentro de um espaço delimitado, que por sua vez estava inserido num espaço muito maior – a rua – continha o desafio de manter uma unidade dentro da diversidade. Cada um de nós precisava estar inteiramente em si mesmo, para estar no outro e formar um todo. O exercício de acoplamento, que se seguiu, configurou exatamente isso e abriu o nosso campo de visão. Caminhamos pelo centro da cidade, lentamente, levemente acoplados, abertos, suaves, contemplativos e ao mesmo tempo interiorizados.
O fazer antropológico se encontra com a fazer artístico na performance de acoplamento, pois assim como o artista se envolve com o meio, com a ação e com o público de uma maneira muito particular, o antropólogo se envolve profundamente e verdadeiramente com todos os aspectos do grupo pesquisado. E é aí que entra a questão de estar inteiro para ser grupo, e de estar perto para que aconteça, para que a experiência surja, única, livre e completa.
Estou lendo um livro que narra a trajetória de um antropólogo que decide estudar o mundo do boxe, e, para isso, ele entra para uma academia de boxe no subúrbio de Chicago, nos EUA. As coisas seguem um rumo, que quando ele percebe, está totalmente envolvido por aquele universo do pugilismo e acaba virando um boxeadro amador. E este fator, diferente do que muitos poderiam pensar, não impediu que ele realizasse a pesquisa, muito pelo contrário, fez com que o trabalho dele fosse uma referência para a antropologia e para a literatura, pois o texto, além de ser reflexivo, é altamente é poético e envolvente. O autor esteve próximo, esteve por inteiro, e esteve aberto para que as experiências surgissem.
Essa é uma nova forma de se fazer antropologia, cada vez mais legítima – pasmem! – no mundo acadêmico. Acredito que o movimento do João de Ricardo em direção aos processos híbridos de criação, também configuram uma nova forma de fazer arte. Uma forma bonita e prazerosa de estar no mundo.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Na fogueira do que faço
por amor me queimo inteiro.


Thiago de Mello

sábado, 26 de setembro de 2009

Sonho

Não sei como foi o encontro de ontem. Devido a montagem da Exposição "Uma Visão Miranda para Carmem", tive que ficar em Montenegro. Mas sonhei com vocês. Estavam os VERONETES dançando para minha visinha segurando uma faixa que falava coisas sem noção (comum né!)... O Douglas era o que mais se requebrava para minha visinha... uma mistura de funck com samba, uma loucura... hehehhe... Eu filmava vocês na "dancinha da visinha". Logo após ela nos convidou a tomar um café. O João pegou o açucareiro, introduzio duas colheres, lambeu o dedo, colocou no açucar e desenhou um sorriso , craindo um monstrinho, onde o rosto era o açucareiro (base) com guampas de colheres e sorriso com lambuzado com a baba do João. Em seguida estavamos numa igreja verde que tem em Poa, na Cavalhada, próximo à Otto... mas isso ainda não lembro, vou dar uma volta e pensar um pouco mais... Saudades de todos vocês.

sábado, 19 de setembro de 2009

Uma semana.
5 dias.
Muita gente louca disposta a agir.
Mentes disponíveis.
Corpos de contato e superfície permeável.
Só consigo pensar nas sensações que tive.

As práticas e as conversas não foram algo externo, foram atividades que efetivamente aconteceram internamente.
Os ossos tão comentados não se distinguiam da pele, dos músculos, dos órgãos, dos neurônios que existem ao longo do corpo e não só no cérebro.
Eram corpos pensando.
Mas pensando não cartesianamente, porque corpos não seguem a razão.
Pensamento que se efetivava pela percepção do outro que se torna parte de mim em uma troca de calor e energia impura.
Impureza que não tem origem certa, direção certa, ou fim.
Energia impura e rizomática,
que mesmo depois que acaba permanece.
Toda e qualquer atividade que realizamos não se esgotou em si mesma...
E mesmo com o fim da oficina ainda existe e reverbera...
Em textos como este, que reflete sobre o processo, ou em qualquer ação que possamos realizar daqui por diante.

Houve uma internalização, uma encarnação da energia imperceptível aos olhos, mas que a física, quando está disposta, comprova tranquilamente a existência.
Era energia térmica, mecânica, sonora, óptica... produzida de forma orgânica.
Éramos orgânicos, mas de um corpo sem órgãos que nos permitia infinitude.
O processo não se extinguiu com o fim da oficina.
O abismo ao qual fomos convidados a nos atirar, incerto, impreciso, inatingível e intangível não se encerra porque é parte desse devir que permanece...
e que somos nós e que não somos nós.

Cada um chegou como um mundo que, desde o primeiro momento em que se permitiu acoplar, se tornou diferente de si e do outro. Nos tornamos híbridos e ainda o somos, porque é impossível destilar ou decantar ou filtrar ou peneirar a mudança realizada por caminhos e substâncias tão diversas.

Dentro dessa prática existimos em um universo paralelo onde não somos mais isoláveis, mesmo que empacotados. Sem tato e sem visão, nos abrimos para escutar e sentir o que nos rodeia de uma maneira tão profunda que, quando somos liberados das camadas de papel e fita adesiva, tudo tem mais cor, cheiro, som e imagem. O isolamento é utópico, pois o corpo fica mais desperto se restringido. Ele vibra com mais força, ele corre com mais vontade, ele é vivo com mais intensidade.
Enxergamos sem ver, porque percebemos que somos cegos com os olhos sempre abertos.

Não somos nem um, nem vários.
Somos seres compartilhados, jamais compartimentáveis.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Grand Finale



Hoje, dia 18 de setembro, o dia iniciou como de costume nesta semana, com o celular despertando pontualmente às 6:35 e eu esticando um pouco mais na cama. Missão: estar no ônibus das 7:50 e assim chegar à Usina a tempo. Apesar da previsibilidade do roteiro, cada um desses dias foi bem diferente. À medida que os encontros foram se sucedendo os sentidos foram sendo aguçados. Após um momento de meditação by google, disse: a sala tem mais cor. A cada dia fomos nos permitindo levar pelo improviso, pelo espontâneo, pelo acaso. As propostas foram sendo assimiladas paulatinamente, massagens que começaram no pé, passaram pela pele até chegar ao osso e resultaram em acoplamentos orgânicos. Corpos sem membros, encontros improváveis e lógicas absurdas.
O Grand Finale veio das memórias grafadas em folhas de caderno com canetinhas de cor. Agrupadas tridimensionalmente formaram uma profunda raiz mnemônica. Juntamos nossos anzóis para formar uma rede e ganhamos a rua. Uma rede de acoplamentos sensíveis, móveis. Com ímpeto, mas sem fúria, promovemos um arrastão, utilizando como materiais, além de nós mesmos, jornais, durex, hidrante e canga (senti falta dos balões amarelos).
Obrigado turma.